O natal da Yakissoba girl
Todo final de ano sempre vejo as mesmas cenas e histórias se repetindo…
Familiares que não se falam durante o ano e resolvem tudo diante de uma ceia, seja ela simples ou glamourosa. Crianças que passaram o ano na intenção dos presentes de final de ano e por isso se dedicaram mais aos estudos ou a arte da "pesca". Pessoas gastando o 13º e o 14º salário em compras de "final de ano": roupa nova, sapatos novos (um para o natal outro para o reveillon) e lembrancinhas de amigo secreto (ou oculto a depender da região). Por falar em amigo oculto, já inventaram até uma nova modalidade: o "rouba-rouba". Acho que em homenagem ao pessoal que, durante o ano inteiro, pratica essa ação de forma tão "classuda" e milionária.
E os cinemas? Esses, juntamente com a Sessão da Tarde, estão repletos de estórias que inspiram os ritos consumistas de final de ano. E que venham os CD's que sempre são lançados com músicas antigas e repaginadas, após um lifting musical!
Além disso, tem aquela velha situação: peru não pode faltar, assim dizem os ritos tradicionais. Mas a grana encurtou e veio a nova tradição: o Chester, uma galinha siliconada que todos fazem questão de ter. Isso é: os que podem! Afinal, franguinho assado também é tradição de ceia natalina dos que não têm como comprar essas aves mais nobres.
Ainda no "espírito natalino", as pessoas compram miniaturas de pinheiros e colocam neles bolas, bichinhos, enfeites variados. Alguns ainda colocam algodão, pois natal tem que ter pinheiro com neve! Meu Deus!!! Logo no Brasil??? Caso Noel existisse realmente, tenho certeza que ele estaria em uma das praias da capital baiana, emplastrado de protetor solar, com os chinelos da moda nos pés (Havaianas), com um óculos escuro de grife e, como a maioria dos gringos que vêm ao Brasil, rodeado de mulheres com micro biquínis.
Você pode até estar pensando: “Nossa, essa criatura nunca teve natal, nunca ganhou presentes, é uma frustrada”.
Engana-se caro leitor!
As sinalizações que fiz são importantes porque ultimamente adquirimos o péssimo hábito de nos deixar levar pelas veredas do consumismo e acabamos por nos esquecer do principal: A FAMILIA.
Mas estar em família é coisa que parece só ter sentido no natal, quando as pessoas saem de suas casas e numa espécie de “êxodo natalino” dirigem-se para a casa do parente mais próximo – ou mais abastado, ou mais velho, sei lá! – que faça a ceia ou que ceda o espaço de sua casa. E esse movimento se alastra por quase todos os países do mundo.
Para esse evento é importante estar com uma roupa nova, com aparência de que tudo é perfeito: ter (ou aparentar ter) volta a ser mais importante que o ser… E assim as famílias do mundo dão as mãos e se abraçam, choram de felicidade no momento da ceia, riem até lacrimejar com as brincadeiras depois da ceia, as fotos, as filmagens, etc, etc, etc…
O depois é que realmente me faz pensar… Depois, com a pia cheia de pratos sujos, com pedaços de rabanada esmigalhados no sofá, farofa espalhada no tapete e no chão e umas marcas de dedos engordurados pelas paredes, braço do sofá e cortina, a pergunta que fica no ar: "Quem vai limpar essa XXXXX?"
Se formos analisar, a limpeza não é apenas concreta e material. A limpeza é de alma e de emoções pois, durante as festas de final de ano, muita gente se deprime, muitos querem fingir para si mesmos o que fingem para outras pessoas durante um ano inteiro… A solidão interior que nenhuma festa ou farra consegue sufocar, exterminar.
Esse ano vou repetir o que tenho feito já há alguns anos. Não vou me abraçar com ninguém e pedir perdão, pois durante o ano sempre que eu falhei procurei me redimir, pedir desculpas e me esforcei para não reincidir no erro. Não irei chorar por reencontrar pessoas queridas que não vejo há tempos, pois durante o ano, eu procurei essas pessoas por telefone, e-mail, msn, pessoalmente, e não escondi delas o quanto significam para mim. Não participarei de amigo secreto – nem de amigo oculto, nem do famigerado "rouba-rouba" – porque fiz questão de presentear cada colega, conhecido e amigo, com meu respeito, carinho, dedicação, fidelidade e ética, presentes estes que andam em falta no mercado das relações interpessoais. No momento da ceia, eu com certeza chorarei, não por não ter um peru, franguinho ou o frango turbinado, mas por lembrar das pessoas que não pude ajudar, e que não apenas no final do ano, mas durante o ano inteiro, não têm o que comer…
E se me perguntarem sobre o que meu filho acha disso tudo, eu afirmo que eu não darei presentes para ele porque ele foi bonzinho ou porque passou de ano; afinal durante o ano inteiro eu dei a ele um presente muito mais importante e precioso: AMOR!
Que nessa época natalina, os jargões não sejam apenas palavras soltas ao vento, mas que possam ecoar em nossos dia a dia, em nossas emoções, consciência e ações. Que todos tenham um Natal FELIZ, a despeito das festas, a despeito das compras, a despeito da ceia… Porque eu, com certeza, terei um Natal FELIZ, pois não há espaço em mim para um fragmento de ano, mas sim, para uma plenitude de dias, semanas, meses e anos…



